A FÁBRICA DA PREGUIÇA

O lugar em que surgem, surpreendidos e orbitantes, os produtos da alma marismática, entre as torres da incerteza e a carne acumulada da solidão.

22.4.06

21.4.06

Enigma

Quando vejo um médium, minha mão cerra-se guardando as unhas na carne. (Cumpre não parecer agressivo).
Aproximo-me devagar, entre a multidão de sombras, por me fazer fotografar acarão dele. Grande erro: o médium odeia a fama como os ácidos o açúcar.
Ante uma tentativa errada de perpetuação, compreendo que o assunto tem esquinas, e as esquinas sombras.
Fixo então, simplesmente, os olhos nas suas mãos, respeitando a distância que em verdade nos une. Para o meu assombro, um código de vidro abre-se ante mim: «Minha terça mão rege o punhal do tempo».
Enquanto sucumbo no ossário do espelho
as minhas mãos têm a idade do universo.

Alfredo Ferreiro
De «Visão do médium (Textos egoístas)», em Sete poetas, A Corunha, 1995. Colectivo.

2.4.06

Volveremos sempre a esta morada,
A ardermos em silêncio no corpo
Que nos trouxe até aqui, outra vez.

Não conhecemos o destino último
Desta viagem repetida, povoadas
As pálpebras com o sol branco.

Neste lugar falamos com vozes alheias,
Sem outra vontade que nadar no vazio,
Com o rosto a procurar-se na libertação
Do poema: peixe abisal nas mãos abertas.

2006.