PAIXÃO Amadeu Baptista
Três textos do livro Paixão, Prémio Victor Matos e Sá 2001 e Prémio Teixeira de Pascoaes 2003, do amigo Amadeu Baptista
ORAÇÃO NO HORTO
Bem-aventurado seja o inferno que há na terra
e o trabalho nos campos cada dia,
e o gado nos redis que nos aguarda,
e as aves que chegan dos confins
dos desconhecidos lugares que manteremos
na frágil proximidade dos segredos. A inocência
inútil seja bem-aventurada
quando além do caminho só existe
um outro abismo, e água, e nada mais.
Bem-aventurada seja a treva infinda,
este travo na língua a desespero,
este rastro de fumo que nos chega
dos confins do deserto e seus oásis.
Glorificada seja essa cabeza
que insidiosamente foi degolada
e o poder do Pai não protegeu
da essência da infâmia e do esquecimento.
Sob o silêncio outro silêncio arde.
Glorificado seja o que comigo chora.
PRISÃO
Recebo a mão sobre o ombro que aqui me vem
prender como a mão de um amigo.
Seque a figueira e o fruto prometido,
estaque o vento para todo o sempre,
não seja nunca mais o mar o mar.
Recebo a mão sobre o ombro que aqui me vem
prender como a mão de um amigo.
CEIA EM EMAÚS
Não se sequestra o mar, como se
sequestra o céu? Línguas de fogo
erguem-se sobre as cabeças, esta ceia
sacia-nos, como se sequestra a fome do mundo?
Esta é a noite ilegítima, em que a insónia contempla
uma culpa sem tempo, esta culpa perdida.
Como se sequestra a luz que há no espírito, a dor
pela treva irremissível?
ORAÇÃO NO HORTO
Bem-aventurado seja o inferno que há na terra
e o trabalho nos campos cada dia,
e o gado nos redis que nos aguarda,
e as aves que chegan dos confins
dos desconhecidos lugares que manteremos
na frágil proximidade dos segredos. A inocência
inútil seja bem-aventurada
quando além do caminho só existe
um outro abismo, e água, e nada mais.
Bem-aventurada seja a treva infinda,
este travo na língua a desespero,
este rastro de fumo que nos chega
dos confins do deserto e seus oásis.
Glorificada seja essa cabeza
que insidiosamente foi degolada
e o poder do Pai não protegeu
da essência da infâmia e do esquecimento.
Sob o silêncio outro silêncio arde.
Glorificado seja o que comigo chora.
PRISÃO
Recebo a mão sobre o ombro que aqui me vem
prender como a mão de um amigo.
Seque a figueira e o fruto prometido,
estaque o vento para todo o sempre,
não seja nunca mais o mar o mar.
Recebo a mão sobre o ombro que aqui me vem
prender como a mão de um amigo.
CEIA EM EMAÚS
Não se sequestra o mar, como se
sequestra o céu? Línguas de fogo
erguem-se sobre as cabeças, esta ceia
sacia-nos, como se sequestra a fome do mundo?
Esta é a noite ilegítima, em que a insónia contempla
uma culpa sem tempo, esta culpa perdida.
Como se sequestra a luz que há no espírito, a dor
pela treva irremissível?

4 Comments:
Magnífico. Não tenho palavras.
Há uma potência irremissível, independentemente da treva em que as próprias palavras parecem cerrar-nos, uma potência irremissível que -precisamente- também lateja nos poemas do Mário.
Treva luminosa, com certeza.
Treva necessária, suponho. O Erro Próprio, talvez, conforme António Maria Lisboa.
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