A FÁBRICA DA PREGUIÇA

O lugar em que surgem, surpreendidos e orbitantes, os produtos da alma marismática, entre as torres da incerteza e a carne acumulada da solidão.

15.11.05

Com intenção de aclarar

Saúdo novamente a iniciativa e o trabalho da Táti com esta fábrica da preguiça, e trago, com a intenção de aclarar as minhas palavras de há uns meses, principalmente com o amigo Mário, e fornecer documentos para a reubicação em um contexto mais largo e fértil do que aquele que nos rodeia, tanto por nacionalismo quanto por esquerdismo, este texto do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho. Incategorizável, explica minhas intenções parcialmente, também, por singulares, mas ajuda a pensar.


Língua e Nacionalismo
Olavo de Carvalho
O Globo, 3 de março de 2001


Políticos, escritores, professores advertem-nos diariamente contra a invasão dos "deletes", dos "mouses", dos "enters" e "starts" que povoam nosso espaço lingüístico. Até universitários incapazes de conjugar um verbo ou colocar pronomes arvoram-se em guardiões da pureza vernácula, distribuindo nas ruas panfletos contra o imperialismo cultural nas horas de estudo em que deveriam estar aprendendo português. E dizem até que servem ao idioma com mais devoção do que a Academia Brasileira. Todos esses melindres patrióticos são demasiado posados para que cheguem a me comover. Não vejo neles senão o oportunismo de demagogos que, em vez de cultivar o idioma, querem usá-lo como pretexto para gerar um estado de alarmismo xenófobo útil a seus propósitos políticos. A desculpa a que se apegam, de que a importação vocabular predispõe à subserviência ante o imperialismo, é a mais falsa e estúpida que se pode imaginar. Se existe idioma que importa mais do que exporta, é precisamente o inglês, o qual, de acordo com esse raciocínio, deveria ser língua dos dominados e não dos dominadores. Segundo a "Cambridge History of English and American Literature" (Vol. XIV, Part II, Cap. 15 § 7), o empréstimo, sobretudo do francês e do italiano, é prática tão extensiva no inglês moderno, que só um quinto das suas palavras dicionarizadas é de origem nativa. Estariam os ianques sob o domínio do imperialismo franco-italiano? Uma língua não é uma simples coleção de palavras. É um sistema. A natureza, o espírito, o valor do idioma estão na sua estrutura dinâmica, no conjunto de regras que dão a sua forma total, a qual está para as palavras isoladas como as proporções e o desenho de um edifício estão para os tijolos que o compõem. Por isso, palavras importadas não têm, por si, a força de corrompê-lo. A corrupção começa no momento em que os falantes dão de usar termos nativos enxertados em construções frasais copiadas do exterior, que sejam incompatíveis com o espírito do idioma. Aí já não se trata de inserir tijolos, mas de alterar a planta do edifício. Mais dano traz à língua nacional quem escreve palavras portuguesas com sintaxe estrangeira do que quem usa palavras estrangeiras numa construção castiçamente vernácula. Este enriquece o idioma: aquele o contamina e infecciona. Um traz alimento; o outro, um vírus. Por isso, adverte a mesma Cambridge History: "Quaisquer que sejam os elementos que compõem o nosso vocabulário, o modo com que se empregam é puramente inglês."'E aí é que está o mal: não podemos dizer o mesmo dos termos que absorvemos. Com freqüência alarmante, esquemas e maneirismos frasais ingleses, inúteis e estritamente pedantes, têm entrado no nosso uso corrente. Nos jornais já não se diz, por exemplo, "na semana passada" e sim "semana passada", sem preposição, para corresponder ao inglês "last week". Nem se escreve mais: "Não tenho dinheiro, disse ele", sugestiva inversão da ordem de verbo e pronome com que o narrador marcava sua distância psicológica do personagem. Escreve-se "Não tenho dinheiro, ele disse, perdendo a nuance, só para rimar com "I have no money, he said". Porém, se você protesta contra esses abusos, quem se levanta para defendê-los, chamando você de "purista", de "reacionário", de "lusófilo"? Aqueles mesmos que cinco minutos antes queriam fechar a alfândega às importações de palavras. Sim, porque em geral essas criaturas não são verdadeiros nacionalistas e sim marxistas, que só defendem o interesse nacional na medida em que, ecoando uma teoria absurda inventada por Stálin, enxergam as relações internacionais como luta de classes. Por extensão, são também adeptos do progressismo lingüístico, segundo o qual toda construção nova é melhor que a velha, bem como da ideologia da transgressão obrigatória, segundo a qual toda regra lingüística é imposição tirânica das classes dominantes, odioso mecanismo de exclusão social contra o qual é preciso lutar com todas as armas, mesmo as da mentira e do achincalhe. Assim, as forças de dissolução lingüistica entram no mercado sob a proteção daqueles mesmos que posam como defensores do idioma. Mas isso não vem de hoje. Se algum fator dissolvente vem corrompendo e debilitando a língua portuguesa do Brasil, é precisamente o transgressivismo obrigatório que, desde o modernismo, se afirma cada vez mais como ideologia dogmática desses corruptores de menores que hoje dominam a educação nacional. Tal é o maior inimigo da língua pátria, tal é o agente destrutivo que há um século vem solapando e embrutecendo o nosso idioma, despojando-o de toda precisão e sutileza, de toda destreza e flexibilidade, reduzindo-o a um sistema de cacoetes que limita severamente o círculo do dizível, portanto do pensável. No começo do século XX, ele forçou a brasilianização estereotipada que, rompendo nossos laços culturais com Portugal, foi tornando cada vez mais inacessível às novas gerações a leitura dos clássicos lusos, favorecendo a fragmentação do português num esfarelado de dialetos provincianos mutuamente incompreensíveis. Graças a ele, qualquer brasileiro culto tem hoje mais dificuldade para ler Camilo Castelo Branco ou Aquilino Ribeiro do que um menino americano para ler Dickens ou Thackeray. Também por conta dessa ideologia adquirimos um conjunto de preconceitos e inibições antigramaticais, estendendo a pecha de "pedantismo" ao que quer que vá além do tatibitate cotidiano de jovens mongolóides e privando-nos masoquisticamente de instrumentos poderosos e originais como a mesóclise pronominal. Na sua ânsia de vetar, de inibir, de paralisar a mente das camadas letradas para reduzi-la à inermidade psicológica e lingüística das classes pobres, o nacional-populismo conseguiu fazer da língua portuguesa falada no Brasil o único idioma ocidental que, no século XX, perdeu dois pronomes e duas pessoas verbais, estando agora obrigado a usar de circunlóquios ou a apelar para a ajuda dos possessivos ingleses "his" e "yours" para que o ouvinte saiba de quem se está falando. Isto já é mais que simples enfraquecimento do idioma: é a completa destruição de seus fundamentos, por obra de dinamitadores que entram no edifício disfarçados em funcionários da limpeza. O nacional-populismo-transgressivismo não é um nacionalismo verdadeiro. É uma doença, um complexo. Rebaixando os valores nacionais à condição de instrumentos de uma estratégia política interesseira, ele destrói o que finge defender. Se queremos preservar o idioma nacional, a cultura nacional, a honra nacional, a primeira coisa que temos de fazer é tirá-las da guarda e tutela de usurpadores, farsantes e aproveitadores.

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Um abraço.

Pedro.

6 Comments:

Anonymous Ramiro said...

É, com certeza, o converter a nação em leit-motiv dominante -ou único- à hora de abordar qualquer tema, por exemplo a(s) língua(s), um impedimento para progredir realmente em todas as direcções. Isso ocorre sobretudo ali onde há um confronto entre perspectivas -e construtos- nacionais diferenciadas (caso da Galiza, o que temos mais perto), o que leva a balizar todo debate com esta focagem, obstaculizando enormemente a capacidade autocrítica e a percepção desprejuizada da própria realidade.
Nomeadamente ao considerar elemento primeiro de afirmação "nacional" uma "lingua galega" precisada de combater os seus inimigos -quer dizer, os dos grupos legitimadores dessa concepção do galego "enxebre"- utilizando para isso a versão empobrecida dessa língua.

11:51 da tarde  
Blogger Casteleiro said...

Interessante, todavia, há qualquer cousa para além da versão da língua, está a questão do conhecimento do instrumento -que tem menos a ver com o tema das normativas, se quigeres. E está, também, uma óptica tradicional e libertada de preconceitos modernos (mais castrantes do que em ocasiões os mesmos preconceitos tradicionalistas, ou tanto polo menos). Não é questão de polemizar, simplesmente de ver, trabalhar e avançar no caminho do enriquecimento pessoal e comunitário.

5:49 da tarde  
Anonymous Ramiro said...

Caro Pedro, a isso mesmo me referia ao dizer o de "progredir realmente em todas as direcções". Concordo com que estas polémicas geradas desde sempre na Galiza impedem fazer o verdadeiro trabalho presente e futuro (porque se perdem muitos recursos no caminho, ou mesmo se perde a direcção do caminho).

8:58 da tarde  
Anonymous Alfredo Ferreiro said...

Amigo Pedro, podes explicar isso do "conhecimento do instrumento"? Se se tratar da língua, onde o ponto de um conhecimento suficiente da língua, por exemplo, para fazer literatura?

11:28 da tarde  
Blogger Casteleiro said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

10:17 da manhã  
Blogger Casteleiro said...

Caros amigos, concordo com a vossa comum intenção de superar desnecessários limites para a expressão. Obviamente, é no Olavo de Carvalho, não em mim, que registo aquele conceito de que me fala Alfredo, conceito que aliás, como sugere a sua agudíssima pergunta, precisa ulterior desenvolvimento.

Erro próprio, o de utilizar outras vozes esterilmente para obviar as próprias limitações expressivas, não de gramática (que as há) mas de intenção, porque mal acompanho já os passos das caravanas de palavras, e o único que me resta é o amor por vós. Por isso, esta será a última vez que nos comuniquemos com palavras.

6:09 da tarde  

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