A FÁBRICA DA PREGUIÇA

O lugar em que surgem, surpreendidos e orbitantes, os produtos da alma marismática, entre as torres da incerteza e a carne acumulada da solidão.

8.5.06

Livro online do poeta Mário Herrero

Anuncio novo post sobre o último livro de Mário Herrero n'O levantador de minas.

22.4.06

21.4.06

Enigma

Quando vejo um médium, minha mão cerra-se guardando as unhas na carne. (Cumpre não parecer agressivo).
Aproximo-me devagar, entre a multidão de sombras, por me fazer fotografar acarão dele. Grande erro: o médium odeia a fama como os ácidos o açúcar.
Ante uma tentativa errada de perpetuação, compreendo que o assunto tem esquinas, e as esquinas sombras.
Fixo então, simplesmente, os olhos nas suas mãos, respeitando a distância que em verdade nos une. Para o meu assombro, um código de vidro abre-se ante mim: «Minha terça mão rege o punhal do tempo».
Enquanto sucumbo no ossário do espelho
as minhas mãos têm a idade do universo.

Alfredo Ferreiro
De «Visão do médium (Textos egoístas)», em Sete poetas, A Corunha, 1995. Colectivo.

2.4.06

Volveremos sempre a esta morada,
A ardermos em silêncio no corpo
Que nos trouxe até aqui, outra vez.

Não conhecemos o destino último
Desta viagem repetida, povoadas
As pálpebras com o sol branco.

Neste lugar falamos com vozes alheias,
Sem outra vontade que nadar no vazio,
Com o rosto a procurar-se na libertação
Do poema: peixe abisal nas mãos abertas.

2006.

26.3.06

Poema

Para o Chíqui.

Corpo nascente da luz:
Adormeço a minha sombra
Nesta paisagem anterior a ti,
Estranhado neste andar primeiro
Sem rasto do meu nome.

Ocupo a raiz das habitações errantes
No espelho da minha consumação
Oculto em teus olhos arvorados, Amor.

Fico na penumbra iluminada,
Beira do tempo anulado,
Nu e livre para te encontrar.

2006.

10.3.06

5.3.06

A nossa terra

Por vezes penso que não sabemos trabalhar. Escrever como se a arte nos infundasse o valor necessário para voar e alcançar altura. E esquecer o medo que temos a SER mais do que a ESTAR vencidos.
Porque estamos vencidos só falamos da terra. Porque sempre viramos os olhos para o chão. Imitamos mal o sol, e provocamos a nossa sombra, desconhecendo a nossa imagem, todas as nossas inúmeras imagens.

O sol está dentro. Devemos libertá-lo para iluminar a terra que pisamos. Só assim reflectirá o calor que precisamos.

3.1.06

Canção para o início do ano

Para todos vós, amigos.


Empregamos todas as artes do amor
Na criação desta casa,
Bem longe de aqui.

Dentro fluem artérias de outras vidas,
Sem memória de passos vencidos
E a necessidade de abrir-nos pelo meio:
Tão alto é o preço da viagem.
Mas permanecemos ainda no desconhecido:
É preciso chegar a luz até o fim dos dedos
Para mudar a nossa estação em morada,
E começarmos, neste espelho, a acordar.
2006.

20.12.05

Canção para o fim do ano.

A todos os amigos da Fábrica da Preguiça, com os melhores desejos
de horizontes abertos e limpos para a voz, para vós.

O signo da anaconda

Já o meu signo de conciliação e tempo
ficou abandonado, munindo minha voz
de uma escrita sem rosto
sem palavras
Levanta-se uma canção de vésperas
no exercício deste amanhecer

A palavra é uma diáspora dos sentidos
o relógio de uma condenação à reconciliação
a terra
mesma
que sabe a horas benévolas e sem trégua
a única conciliação dos signos a bebedeira
mágica
túmulo
das canetas e as canções aves da sombra
....
Pedro

27.11.05

LITERATURA GALEGA AINDA NÃO EXISTE

Lestes as últimas declarações de alguns destes intelectuais galegos que criticam a pobreza literária da Galiza e sua dependência da literatura espanhola?

Alfredo Conde: «Temos unha boa literatura sen lectores»; «perdeuse a busca da excelencia. Publicouse tanto e tan indiscriminadamente que non hai autores de referencia na literatura moza galega»; «a cultura nosa é un enxendro e eu non lle auguro un bo porvir».

Ramiro Fonte: «O contexto literario galego necesita referentes claros de raíz cultural e lingüística»; «a literatura galega existe porque existe Rosalía»; «eu teño un malísimo concepto do ambiente cultural galego».

Luisa Castro: «Culturalmente temos que despertar. Ten que ver coa cultura, non coa literatura. Boto en falta unha curiosidade intelectual e de lectura»; «a literatura galega actual deriva da construcción artificiosa desa cultura como instrumento político».

A modo de salada de ideias, podemos resumir que:
1) A causa da ausência de um critério qualitativo o corpus da literatura galega nem tem presente nem tem futuro. O que existe é um decorado sem fundo, sem valor, falso.

2) O ambiente cultural em que deve surgir a arte literária merecente de tal nome é um território sem vida, com nulo interesse não só pelo cultivo intelectual mas nem tão só pela leitura.

Afinal, eles é que sabem. Suponho.